- Dois ovos
- Algumas fatias de queijo
- Três fatias grossas de fiambre
- Meio tomate
- Azeite aromatizado com alho
- Sal grosso
- Uma manga
- Um litro de água
- Folhas de Chá Verde
Bate-se os ovos com uma pitada de sal fino e reserva-se. Passa-se cada uma das fatias de fiambre pela frigideira escaldada, não mais que dez segundos cada. Corta-se o tomate em fatias finíssimas, tempera-se com sal grosso e azeite. Lava-se bem a manga e corta-se metade, mesmo com casca. Deita-se os ovos numa frigideira, sem mexer, junta-se as fatias de queijo no meio e dobra-se a dois terços. Ferve-se a água e junta-se as folhas de chá verde, deixa-se repousar durante cinco minutos.
Sugestão: se tiver cogumelos frescos, pode salteá-los com manteiga e servir em torradas muito fininhas.
Serve-se com o jornal da manhã, na varanda, depois de uma caminhada de 45 minutos em passo rápido. Café opcional.
Bom fim de semana.
sábado, março 15, 2008
sexta-feira, março 14, 2008
Hoje foi um bom dia para
Acordar às 7h.
Andar de comboio com o sol a nascer.
Vestir uma saia.
Ter dois dias acumulados de e-mails para ver.
Almoçar na sala fresca.
Rir às gargalhadas.
Saber que não sou a única contente com o meu trabalho.
Sentir o Amor da G.
Descobrir que qualquer coisa mudou. Descobrir, não. Assumir.
Sair mais tarde porque há coisas para fazer.
Ir buscar os sapatos que estavam a arranjar.
Sorrir a um estranho no metro.
Andar no Chiado.
Escolher andar a pé em vez de metro.
Ver o sol na Rua Garrett.
Ter de me desviar de pessoas.
Olhar para dentro de um prédio em recuperação.
Ver que a Primavera está a chegar na forma de Jacarandá.
Ouvir umas pessoas a falar francês no comboio.
Não mudar de vida, mas adaptar o que tenho ao que quero.
Começar o fim-de-semana sozinha em casa.
Fazer bolachas.
Andar de comboio com o sol a nascer.
Vestir uma saia.
Ter dois dias acumulados de e-mails para ver.
Almoçar na sala fresca.
Rir às gargalhadas.
Saber que não sou a única contente com o meu trabalho.
Sentir o Amor da G.
Descobrir que qualquer coisa mudou. Descobrir, não. Assumir.
Sair mais tarde porque há coisas para fazer.
Ir buscar os sapatos que estavam a arranjar.
Sorrir a um estranho no metro.
Andar no Chiado.
Escolher andar a pé em vez de metro.
Ver o sol na Rua Garrett.
Ter de me desviar de pessoas.
Olhar para dentro de um prédio em recuperação.
Ver que a Primavera está a chegar na forma de Jacarandá.
Ouvir umas pessoas a falar francês no comboio.
Não mudar de vida, mas adaptar o que tenho ao que quero.
Começar o fim-de-semana sozinha em casa.
Fazer bolachas.
sábado, março 08, 2008
Uma dor que não é dor - é vazio.
Vazio outra vez, estou de volta a qualquer coisa que não conheço. Mas este vazio é diferente, já reparaste? Vem cheio de um espaço que tem espaço lá dentro. E se tento perceber, fora do tempo que não tenho, de quem é este espaço, descubro que o espaço é só meu, de ninguém mais. Não conforta. Não aquece. Não tem um abraço nem um ombro onde me posso encaixar. Não me protege, nem de mim, nem da vida que parece que tenho agora, nem do frio de que me vesti. Comecei com "Uma dor", mas não será antes uma não-dor-nem-prazer-nem-nada-que-preencha?
"Vives para ti, estás a construir o teu caminho". Não sei se quero construir um caminho que vou fazer sozinha, talvez prefira não conhecer as curvas, pode ser que numa delas estejas tu à minha espera, mão estendida para me ajudar a subir. Tu, quem? Pois...
Tenho uns sapatos novos de princesa. Mas as princesas também têm bolhas nos pés, e também sofrem ao fim do dia por causa dos saltos altos, principalmente as que vão de metro para o emprego. Porque é uma dessas que quero ser, acho eu, só não quero é usar saltos altos porque me obrigam. Só porque sabem que magoa. Eu não sei porquê, mas julgo as pessoas pelos sapatos. Desculpem as pessoas que não sabem calçar-se, é uma espécie de compulsão, acho eu. Os meus sapatos definem-me (já não são só 33 pares).
Faço bolachas de aveia porque fazem bem à cabeça, mas enquanto espero que saiam do forno e a casa cheira a massa de bolachas, não consigo pensar noutra coisa. Posso fazer bolachas para ti, se quiseres, acho que ias gostar. Não vale a pena, não ias valorizar o gesto, ias achar infantil e desajustado, não estou para me sujeitar, desculpa. Tento outras maneiras de chegar a ti, e sei que nenhuma delas é francamente verdadeira, em nenhum desses meus planos sou verdadeiramente eu.
Aproveito a tarde sem sol para ir ao cinema sozinha, "estar comigo".... Mais ainda? Mais comigo? Começo a fartar-me da minha companhia, é mais suportável quando posso partilhá-la com alguém. Ninguém me conhece como eu, é pena. É pena. Oito horas por dia não chegam para me conhecerem, e se não tenho tempo para mais, a culpa não é minha. Agora que os meus dias se definem numa rotina 24/7, o meu mundo ficou para trás, não pertenço aos meus espaços, se pensar bem, não são meus (quero que sejam?). Acho que o meu Mundo não está sequer neste hemisfério. Não sei, não sei.
sábado, janeiro 19, 2008
Hoje, só hoje
Foi hoje. Aconteceu hoje, sem eu poder controlar, sem sequer perceber que ia chegar, foi hoje. Foi a ler. Foi a lembrar-me do muito que não vivi por lá, nessa terra de gentes frias e magras, homens e mulheres da mesma altura, de rio em todo o lado, e pontes mil. Foi a pensar que um mês e meio não é viver em lado nenhum, que por muito que tenha querido convencer-me, não pertenci àquelas ruas, não fui um deles, porque sozinha não fui ninguém e nao fui a lado nenhum. Foi a lembrar-me que desde lá, desde que voltei de lá, não havia, e fazia-me falta. Uma parte do que sou agora é exactamente isto, ou a ausência. A falta de alguma coisa pode só ser notada quando ela volta? Foi hoje, mas não posso dizer que tenha voltado. Apareceu, só, por um bocadinho, só, mas foi-se embora outra vez, e enquanto escrevo isto, talvez já não faça sentido escrever, porque já não é. Já não é.
sexta-feira, dezembro 14, 2007
E ao mesmo tempo que sentia não pertencer a lado nenhum, tinha uma necessidade enorme, incontrolável, de ir desaparecendo dos sítios para ir para outros sítios. Duravam cinco dias a uma semana, estas saídas, e normalmente não avisava e não dava notícias. Porque eram estes afastamentos inexplicados e não reportados que lhe davam a sensação de isolamento. Quando voltava, tudo estava na mesma, menos a sua posição no grupo. Não se sentia só quando lá estava, mas bastavam 3 dias longe para que deixassem de sentir a sua falta. E isso era assim em todo o lado, mesmo nos esconderijos. Mesmo em casa. E não é que sofresse, já era um hábito, mas se pensasse nisso, se durante uma insónia se pusesse a pensar nisso, sabia que sofria. Só podia sofrer, ninguém aguenta sentir-se dispensável. Mas continuava a fazer tudo como antes, como sempre. Não dava grande atenção a ninguém que não fizesse parte do dia-a-dia imediato, mas não era falta de Amor. Simplesmente não sentia a falta de ninguém. Nem mesmo das pessoas mais óbvias. Declarava essa falta, na verdade, mas não a sentia. E não era de propósito, era um desprendimento de quem não quer sofrer, pensava. Não pertencia a lado nenhum porque os laços que criava podiam até ser intensos num primeiro momento, mas acabavam por enfraquecer, talvez devido aos seus próprios desaparecimentos. Ligava-se demais às rotinas que encontrava em cada sítio para onde ia, mas facilmente se desprendia. A vida sem âncoras onde voltar não deixa de ser uma vida solitária. E ninguém quer estar sozinho. Bem, pode ser que haja quem queira, Talvez quisesse, mas na verdade não o sabia. Na verdade não o sabia. A vida tinha sido fácil, nunca verdadeiramente perdera ninguém, mas não se dava, não se ligava. Sempre acreditara que sim, via-se como uma pessoa com muito para dar, via-se com alguém para a vida inteira, acreditava que se apaixonava com a maior das facilidades, mas a idade mostrou-lhe que não. E sentia falta desse vazio de quem sofre ou perde por Amor, mas que é um vazio preenchido pelo que sente. Durante meses orgulhou-se da incapacidade de amar. Chamava-lhe antes Controlo sobre o Amor. Mas com o tempo percebeu que não. Incapacidade de amar. E com o frio deixou de ter piada, deixou de ser um controlo de si aprendido numa noite gélida de Junho, com alguém desconhecido, passou a ser um deficit. Não chorava, já não sabia chorar. Não tinha razões para chorar porque não sofria. Sofria de vazio. Quando o vazio é um problema, é porque chegou a altura de chorar, de ter razões para chorar. Não se envolvia, não se empenhava em nada, não dava de si à mais simples das causas, não se entregava nem a si. Nem àquilo em que sempre acreditara. Não se empenhava no futuro, não acreditava no futuro.
E a sua palavra mais recorrente era Não.
segunda-feira, dezembro 10, 2007
Às Vezes vezes 8
Acontece-me várias vezes, se calhar até vezes de mais, ler ou ouvir ou pensar numa palavra e ter de a dizer em voz alta. Não vejo isto como uma compulsão, mas qualquer coisa em mim obriga-me a pronunciar a palavra para perceber o sentido. Ou só para a ouvir, às vezes soa bem. E não são necessariamente palavras estranhas ou pouco habituais, mas acontece-me às vezes. Não é uma compulsão, mas nunca é bem visto falar sozinha. Dou por mim muitas vezes a falar sozinha, coitadas das pessoas que se cruzam comigo e me vêem a contar-me histórias. Tenho uma relação com as palavras, as faladas principalmente - as escritas são um meio, mas também as adoro. Elas nunca me soam muito bem quando são ditas por mim e ouvidas por outros, mas se mais ninguém me ouve, gosto. Gosto de me adaptar aos estilos que leio, e não é raro ler um livro, como o que estou a ler agora, muito discursivo mas nada simples, e acomodar-me a esse estilo. Digo o que leio mesmo nas coisas mais banais. Há quem se assuste.
Num dia de sol como o de hoje, e ainda por cima num dia tão fora da rotina, o livro não me basta. Demoro sempre mais a ler nos dias de sol, porque tenho de olhar pela janela e ver o sol e pensar nisso tudo. É melhor do que quando leio de enfiada, em que às vezes parece que salto parágrafos, mas quando volto atrás já estou a repetir. Preciso das palavras, envolvo-me nelas, saio deste mundo para outro e outro qualquer, e vou sempre sozinha, tem piada, é sempre sozinha que mergulho nos meus livros e é sempre sozinha que olho de fora para o que deixei e para o que leio. Muitas vezes nem dou pelo tempo que demoro a fazer catorze estações, quando dou por mim já passaram 27 minutos. E esqueço-me, quase que é outro dia ou outra dimensão ou tenho coisas para fazer de que já me esqueci. E o caminho até casa é sempre mais demorado e comprido, ou sou eu que sou mais lenta porque ainda estou a tentar assimilar. Mas são bons estes dias de sol. Em que apetece sair do comboio e andar por ali, encontrar pessoas e ver se elas também falam sozinhas ou se sou só eu que encarno personagens que às vezes sou eu mesma.
sexta-feira, novembro 16, 2007
Fica
A minha hora é a noite. O meu elemento é o ar. Em movimento. Vento. Sentada no escuro de olhos fechados, oiço o vento e encho o peito de tudo o que ele me traz de ti. Mãos de vento que me secam lágrimas e calam gritos, mãos que me tocam, me abraçam e sacodem. Mãos de vento cheias da sombra que me cobre, que te afasta de mim. Enchem-se de vento os ouvidos, de vento os cabelos, cega-me a poeira que levantam teus passos. Porque partes. Não vás. Fica comigo
terça-feira, outubro 30, 2007
Primeiro dia (noite) de aulas II
(Encontrão)
- Desculpe.
- Não faz mal.
(Segundo encontrão)
- Desculpe.
- Não faz mal.
(Risinhos)
- E como é que estão as coisas lá na tua universidAde?
- Estão boUas, as gajas são giras.
- E simpÁticas, são simpÁticas?
- Sim, dá para fazer amizades!
- Fazer amizades é brutAl!
- Podes crer! Acho mesmo engrAçado quando vais no metro e metes conversa com a miúda que 'tá ao teu lAdo!
- Pá, ya! Isso nunca me aconteceu, mas sempre pensei nessa cena!
- Pois é, é como diz a boUa educação, fEchas o livro e dizes olÁ!
(risinhos)
- Sim, fEchas o livro e dizes olÁ!
(risinhos)
A sequência de frases cretinas repete-se, acompanham-na gestos, risos risos e risos. Mas risos porquê?? A conversa é estúpida, incomoda quem está ao lado, e não vai levar a lado nenhum. A miúda que lê um livro ao vosso lado não vai fechar o livro nem dizer Olá! Está mais concentrada em tentar não ouvir a vossa conversa ridícula, ouve a música pesada e aos gritos no MP3 do miúdo que está à frente dela.
Uma pessoa acaba de ter cinco horas de aulas. Estatística, ainda por cima. São 23h30, uma pessoa está cansada, não lhe apetece ter de fingir que não vos ouve. Voltem lá para Rio Tinto ou Gaia ou Fafe de onde vieram e não me chateiem! Deixem-me ler o meu livro. Até podia ser uma réplica da lista telefónica, essa miúda não vai levantar os olhos do livro para vos dizer olá, porque já a chatearam tempo demais com essa conversa ridícula. Vai continuar a fingir que vocês não existem!
Aprendam: quando quiserem que uma miúda que lê um livro no metro vos diga olá, não falem um para ou outro, falem directamente para ela, senão estão a ser estúpidos e pouco inteligentes, ninguém quer dizer olá a um tipo com sotaque do Norte profundo que ainda por cima é pouco inteligente.
Primeiro dia (noite) de aulas
Metro Cidade Universitária.
Saída Hospital de Sta Maria.
Sempre em frente ao longo da Avenida Professor Gama Pinto.
Parada no sinal encarnado, à espera do verde.
Desconhecido do outro lado da estrada, à espera do verde.
Nada de especial chama a atenção por falta de óculos e dificuldades de visão nocturna.
Sinal verde.
Desconhecido giríssimo cheio de embrulhos nas mãos e Desconhecida pronta para as aulas de frente um para o outro, hesitação no meio da passadeira para escolher quem vai pela direita e quem pela esquerda.
Sorriso.
Sorriso.
Saída Hospital de Sta Maria.
Sempre em frente ao longo da Avenida Professor Gama Pinto.
Parada no sinal encarnado, à espera do verde.
Desconhecido do outro lado da estrada, à espera do verde.
Nada de especial chama a atenção por falta de óculos e dificuldades de visão nocturna.
Sinal verde.
Desconhecido giríssimo cheio de embrulhos nas mãos e Desconhecida pronta para as aulas de frente um para o outro, hesitação no meio da passadeira para escolher quem vai pela direita e quem pela esquerda.
Sorriso.
Sorriso.
sábado, outubro 27, 2007
quinta-feira, outubro 25, 2007
Retournée
Voltar a casa não é difícil.
Não é difícil quando tenho um abraço de Pai à espera no aeroporto.
Não é difícil se tenho a casa quentinha e cheia de flores. A Mãe à minha espera para falar. Os risos de sempre da minha casa. Sintra. Dormir em Sintra. Jantar com todas. Amigos que aparecem.
Não é difícil. É bom.
É bom estar numa casa onde não se consegue ler um livro sossegada. É bom uma casa que tem um sofá. Cortinas. Tapetes. Gente. Risos. Calor. Novidades novinhas em folha. Manas.
Tinha medo de chegar e ver que tudo estava na mesma. É bom chegar e ver que está. Menos eu.
Cresci.
Estou preparada para voltar para esta casa e esta família, que me abraça e que está em casa, mesmo quando não está.
Sinto-me segura no silêncio do sono dos quartos ao lado.
Não foi um fracasso. Não perdi nada.
Cresci. Tens razão, Marta, cresci.
Não consigo dormir, mas gosto de ouvir a Filipa na cama ao lado, gosto de saber que amanhã, mais cedo do que eu queria, vou acordar com o movimento da minha casa. A Minha Casa. É esta. Nunca foi um 5º andar vazio.
Paris foi bom pelo que foi e pelo que trouxe, mas esta é a minha Casa, aqui sou mais Vera.
Cresci, e posso voltar para casa, onde vão gostar mais de mim, estou melhor - vi o que não quero ser.
Não é difícil quando tenho um abraço de Pai à espera no aeroporto.
Não é difícil se tenho a casa quentinha e cheia de flores. A Mãe à minha espera para falar. Os risos de sempre da minha casa. Sintra. Dormir em Sintra. Jantar com todas. Amigos que aparecem.
Não é difícil. É bom.
É bom estar numa casa onde não se consegue ler um livro sossegada. É bom uma casa que tem um sofá. Cortinas. Tapetes. Gente. Risos. Calor. Novidades novinhas em folha. Manas.
Tinha medo de chegar e ver que tudo estava na mesma. É bom chegar e ver que está. Menos eu.
Cresci.
Estou preparada para voltar para esta casa e esta família, que me abraça e que está em casa, mesmo quando não está.
Sinto-me segura no silêncio do sono dos quartos ao lado.
Não foi um fracasso. Não perdi nada.
Cresci. Tens razão, Marta, cresci.
Não consigo dormir, mas gosto de ouvir a Filipa na cama ao lado, gosto de saber que amanhã, mais cedo do que eu queria, vou acordar com o movimento da minha casa. A Minha Casa. É esta. Nunca foi um 5º andar vazio.
Paris foi bom pelo que foi e pelo que trouxe, mas esta é a minha Casa, aqui sou mais Vera.
Cresci, e posso voltar para casa, onde vão gostar mais de mim, estou melhor - vi o que não quero ser.
segunda-feira, outubro 22, 2007
Medo
de cães
do escuro
de andar de carro à noite quando não tenho os óculos
de gente estranha na rua
de morrer
de ser atropelada
de ter um desastre e ninguém saber
de não poder ter filhos
de ter filhos
de palhaços
de nunca mais deixar de ter calor
de nunca mais deixar de ter frio
de fogo de artifício
de barulhos muito intensos no geral
de ser raptada
de enlouquecer
de falar em público
de vespas (não de abelhas, só de vespas)
de nunca mais conseguir dormir uma noite inteira
de não conseguir acabar uma coisa muito importante que comecei
de ver filmes de terror
de nunca chegar a perceber o que é que quero realmente fazer
de nunca me vir a entregar 100% ao que faço
de perder o que já foi
de esquecer
de ver cada dia pior
de agulhas
do mar da Praia Grande, às vezes
da Estrada da Pena à noite, sozinha no carro
de trovoada
de voltar para Lisboa daqui a dois dias e ver que está tudo igual. E eu também.
do escuro
de andar de carro à noite quando não tenho os óculos
de gente estranha na rua
de morrer
de ser atropelada
de ter um desastre e ninguém saber
de não poder ter filhos
de ter filhos
de palhaços
de nunca mais deixar de ter calor
de nunca mais deixar de ter frio
de fogo de artifício
de barulhos muito intensos no geral
de ser raptada
de enlouquecer
de falar em público
de vespas (não de abelhas, só de vespas)
de nunca mais conseguir dormir uma noite inteira
de não conseguir acabar uma coisa muito importante que comecei
de ver filmes de terror
de nunca chegar a perceber o que é que quero realmente fazer
de nunca me vir a entregar 100% ao que faço
de perder o que já foi
de esquecer
de ver cada dia pior
de agulhas
do mar da Praia Grande, às vezes
da Estrada da Pena à noite, sozinha no carro
de trovoada
de voltar para Lisboa daqui a dois dias e ver que está tudo igual. E eu também.
domingo, outubro 21, 2007
terça-feira, outubro 16, 2007
Maison de Portugal
Depois de chegar a uma certeza e de uma noite sem conseguir dormir sobre essa certeza vem sempre um dia difícil. E se esse dia acabar por derrubar essa certeza, posso esperar por uma noite impossível. Acabo de descobrir o que procurava em Paris. Mas não em mim e não na minha vida. Viver no 8éme nao é um estrondo, como eu pensava. Acabei de descobrir o que é Erasmus, mas não o meu erasmus. E acabei de descobrir que tudo o que escrevi aqui antes não passou de ilusão: a janela de oportunidades que se abriu em Maio acabou por ser a mais castradora das experiências. E quase desisti de tudo sem saber o que era tudo. E agora voltei à incerteza.
Já sei que quero viver em Paris mas não sozinha em Paris, mas não sei como vou fazer para conseguir isso. Já sei que preciso de um trabalho, mas este não me serve, quero outro. E o mestrado é secundário, há muito mais para viver aqui, e a falta de 18 créditos não passa de um pormenor. Mais um ano? O que é isso, comparado com 3 meses aqui? E descobri tudo isto em 50 minutos numa maison de portugal na cité universitaire, com não sei quantos portugueses que vieram cá fazer o mesmo que eu, mas que encontraram uma vida muito diferente da que eu tive. Tenho de ficar. Tenho de encontrar o meu lugar em Paris, afinal o que eu imaginei existe e não é assim tão inalcançável. Um esforço, não me parece que seja muito mais do que isso. Tenho de me encontrar, tenho de perceber o que quero (ou antes: tenho de perceber como chegar ao que quero). Obrigada J. Paris por outros olhos.
quinta-feira, outubro 11, 2007
terça-feira, outubro 09, 2007
Russie Blanche
Uma manhã. Menos, uma hora dessa manhã. É o que basta para decidir o fim de tudo. Um metro de pessoa. Meses de preparação, noites sem dormir a antecipar tudo. Para afinal nada ser como se pensa, e tudo escorre devagar enquanto subo cinco andares. Fazer malas e voar? Já? Vale a pena esperar mais? Vale a pena procurar noutro lugar? Vale a pena acreditar que vale a pena? Entrego-me muito facilmente. Talvez. Mas não foi fácil, nada aqui foi fácil. Eu não desisto, perder as forças não é desistir. Quando se torna impossível, o que é que se pode fazer? Não depende só de mim, mas estoiro de pensar que depende de uma pessoa que não é uma pessoa. Antinatura. Vais ficar sozinha, minha pequena, tenho muita pena.
- Tout le monde va partir.
- Sauf maman.
Está bem, acredita nisso! Tenho pena de ti, a tua brancura não te vai salvar, porque ela não é pureza, mas doença. Não é inocência, mas dissimulação. A brancura transparente e esverdeada dos vilões. Rezo por ti, não ficas na minha vida depois de me ir embora, mas ficas na tua. E ninguém aguenta alguém assim, nem tu mesma. Acima de tudo, tu mesma.
E não sei quem és na vida para escrever sobre ti. Mas tens o poder de destruir sonhos.
segunda-feira, setembro 24, 2007
Michael Ondaatje II
"Quando alguém fala, ele observa-lhe a boca e não os olhos com as suas cores, a seu ver sempre mutaveis, consoante a luz de uma sala, o momento do dia. As bocas revelam a insegurança ou a presunção ou qualquer outro ponto do espectro do caracter. Para ele são a feição mais complexa de um rosto. Ele nunca sabe ao certo o que uns olhos revelam. Mas consegue descortinar nas bocas uma nuvem de indiferença, uma sugestão de ternura. È facil avaliar erradamente um par de olhos, pela forma como reagem a um simples raio de sol."
In The English Patient
Este livro fala demais sobre mim
Michael Ondaatje
"Kip sai do campo onde andou a cavar, a mão esquerda erguida diante do corpo como se a tivesse magoado.
Passa pelo espantalho da horta de Hana, o crucifixo com latas penduradas e sobe a encosta em direcção à villa. Ampara a mão com a outra, como se resguardasse a chama de uma vela. Hana sai para o terraço, ao seu encontro, e ele pega-lhe na mão e encosta-a à sua. A joaninha que corre em volta da unha do dedo mìnimo passa rapidamente para o pulso dela.
Hana volta para dentro de casa. Agora é ela que leva a mão erguida à sua frente. Atravessa a cozinha e sobe a escada.
O doente vira-se para ela ao ouvi-la entrar. Ela toca-lhe no pé com a mão onde traz a joaninha. O bicho abandona o seu dedo, trocando-o pela pele escura. Evitando o mar de lençòis, inicia a longa caminhada qté ao outro extremo do corpo do doente, mancha vermelho-vivo sobre aquela carne vulcanica."
Passa pelo espantalho da horta de Hana, o crucifixo com latas penduradas e sobe a encosta em direcção à villa. Ampara a mão com a outra, como se resguardasse a chama de uma vela. Hana sai para o terraço, ao seu encontro, e ele pega-lhe na mão e encosta-a à sua. A joaninha que corre em volta da unha do dedo mìnimo passa rapidamente para o pulso dela.
Hana volta para dentro de casa. Agora é ela que leva a mão erguida à sua frente. Atravessa a cozinha e sobe a escada.
O doente vira-se para ela ao ouvi-la entrar. Ela toca-lhe no pé com a mão onde traz a joaninha. O bicho abandona o seu dedo, trocando-o pela pele escura. Evitando o mar de lençòis, inicia a longa caminhada qté ao outro extremo do corpo do doente, mancha vermelho-vivo sobre aquela carne vulcanica."
In The English Patient
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