domingo, dezembro 20, 2009

...

quando é assim apetece-me entregar-me e deixar-me levar. não tenho forças para lutar contra a corrente.

e não é um descanso dos outros dias: é o peso do silêncio deles.

sábado, dezembro 19, 2009

A vida muda. Quando um Sábado de sol começa como o de hoje, então estou especialmente virada para pensar nestas coisas de mudanças de vida. Dá-me saudades. Não de nada muito concreto, mas saudades de um tempo qualquer em que os Sábados com sol serviam para fazer alguma coisa com todos, e os Sábados começavam de facto com todos. Isto é mais um traço de personalidade do que o acordar de hoje. É dia de café em caneca grande, um cigarro na varanda ao sol e sair de casa para ir andar por aí (não tão aleatoriamente como isso). Sou uma pessoa de hábitos, é tudo muito cíclico* - normalmente, pelo dia da semana em que estou, à vezes em ciclos não tão curtos, sei como é que vou acordar e como é que me afectam as coisas, como esta luz, por exemplo. Hoje é um dia muito bom para me deitar na areia outra vez. Vá, já chega. Tenho 17 dias inteiros pela frente.
* Cf. o histórico deste blog.

Un_certainty

quinta-feira, dezembro 10, 2009

sábado, novembro 28, 2009

Tempo: sem

As semanas acontecem com vento a passar-lhes por baixo e a levá-las mais depressa.
Parece não haver tempo para tudo o que está a vir - e cada vez me envolvo em mais.
E eu creio que se um de nós fosse martirizado, não pela Fé, que já tem bastantes mártires, mas pela Caridade, se um de nós subisse à forca ou à fogueira, em lugar, ou mesmo ao lado, da mais repugnante vítima, haveria de encontrar-se então sob novos céus, sobre uma nova terra. O pior velhaco ou o mais pernicioso herético nunca será tão inferior a mim como eu o sou em relação a Jesus Cristo.
In A obra ao negro, Marguerite Yourcenar, 1985.

domingo, novembro 22, 2009


Mais do que os quadros já postos na parede, há histórias novas para contar.

segunda-feira, novembro 16, 2009

As próprias ideias deslizavam. O acto de pensar importava-lhe agora mais do que os duvidosos produtos do pensamento em si. Examinava-se a pensar, tal como se contasse, com o dedo sobre o pulso, as pulsações da artéria radial, ou, sob as costelas, o vaivém da respiração. Toda a vida se espantara com essa faculdade que as ideias têm de se aglomerarem friamente como cristais, formando estranhas figuras vãs; ou crescerem como tumores devorando a carne que os concebeu; ou assumirem monstruosamente certos contornos da pessoa humana, à maneira dessas massas inertes que algumas mulheres dão à luz e que, em suma, não são mais do que um sonho da matéria. Uma boa parte dos produtos do espírito não passava também de disformes sombras lunares. Outras noções, mais claras e nítidas, como que fabricadas por um mestre artesão, eram, porém, como aqueles objectos que, à distância, iludem; imensamente admiráveis eram os ângulos e arestas; e todavia não passavam de grades aonde o entendimento a si mesmo se aprisiona, abstractas ferragens que a ferrugem da falsidade não tardaria a carcomir. Tremia-se, por momentos, perante a iminente transmutação: um pouco de ouro parecia brotar no crisol do cérebro humano; não se conseguia, contudo, mais do que uma equivalência; da mesma forma que, naquelas experiências grosseiras com que os alquimistas da corte tentam provar aos príncipes seus clientes que algo descobriram, não era o outro, no fundo da retorta, senão o de um banal ducado que, depois de correr de mão em mão, ali foi posto pelo alquimista antes da fervura. Tal como os homens, morriam as noções: vira, no decurso de meio século, várias gerações de ideias desfazerem-se em pó.
Sentia-se penetrar por uma metáfora mais fluida, produto de antigas viagens marítimas. Este filósofo que procurava abarcar no seu todo o entendimento humano, via, subjacente a ele, uma massa submetida a curvas calculáveis, estriada por correntes cujo mapa seria fácil de traçar, de fundas pregas cavada, pelas massas de ar e a pesada inércia das águas. Acontecia, com estas figuras assumidas pelo espírito, o mesmo que com aquelas formas nascidas das águas indiferenciadas, ora assediando-se ora revezando-se, à superfície do pego; cada um dos conceitos acabava por se desfazer no seu próprio contrário, da mesma guisa que duas vagas, ao tocarem-se, se aniquilam numa só e mesma branca espuma. Zenão ficava-se a ver fugir essa vaga desordenada, que consigo levava, como destroços, aquelas poucas verdades sensíveis de que julgamos estar seguros. Muitas vezes lhe pareceu entrever, por sob o fluxo, uma qualquer substância imóvel, a qual estaria para as ideias como as ideias estão para as palavras. Nada, porém, provava que tal substrato fosse a camada última, nem que uma tal fixidez não escondesse um movimento demasiado violento para o humano intelecto. A partir do momento em que renunciara a confiar de viva voz tudo o que pensava, ou a consigná-lo por escrito sobre a banca dos livreiros, essa privação obrigou-o a descer mais fundo que nunca, em busca de puros conceitos. Renunciara agora, temporariamente, a todos os conceitos em prol de um exame mais profundo; como quem retém a respiração, retinha ele o espírito, a fim de melhor ouvir aquele barulho de rodas a girar tão rapidamente que uma pessoa nem se apercebe de que rodam.
In A Obra ao Negro. Marguerite Yourcenar, 1985. Pp. 176-178

segunda-feira, novembro 09, 2009


Esperar não é perder tempo. Esperar é tempo.
É tempo que se transforma em sabedoria.

sexta-feira, novembro 06, 2009

Sexta-Feira II

É tudo cinzento e depois há rasgos de uma luz que cega.

segunda-feira, outubro 19, 2009

Apesar de tudo, talvez não esteja ainda preparada para estes dias de chumbo. Apetece-me o Inverno, mas não me apetece começar já a ter dores de cabeça: preciso de leveza.
Já comecei a estudar. Era o que me faltava. É por isso.

terça-feira, outubro 13, 2009

domingo, outubro 11, 2009

Vento II

Há um sítio aqui perto de casa onde o vento tem um percurso especial. Parece que foge, mas volta sempre ao mesmo ponto. É diferente do normal, este vento. Cruza uns arcos e brinca com as folhas que por ali andam, não conseguem estabelecer-se num bocadinho de chão: assim que se separam umas das outras para respirar melhor, vem este vento-criança e junta-as todas outra vez em montes, corre no meio delas a dar pontapés no vazio para vê-las voar. No corredor estreito que vai de um espaço amplo ao outro, esse vento tem quase vida e vontade. Eu gosto de ficar ali com ele um bocadinho. Entra-me nos ouvidos - já falei aqui do quanto gosto disso. É bom antes de ir dormir, às vezes acontece que consigo mesmo ficar de cabeça vazia - só com vento - e aí dá para dormir sossegada. Eu gosto muito de vento, de facto. Gosto das ruazinhas com vento. Gosto do meu cabelo com vento. Gosto de estar parada com vento. E de andar com vento. E da praia com vento - e uma camisola. E gosto do vento do lado de fora das janelas.
Eu gosto destas coisas.

domingo, outubro 04, 2009

quinta-feira, setembro 24, 2009

Hoje veio correio para mim.

terça-feira, setembro 22, 2009

Facto

Não há Silêncio que me incomode.
Em que um dia inteiro sozinha no Departamento me permite o meu próprio ritmo mas dá-me demasiado espaço para pensar em Tudo Isto
(JURO que não estou a inventar desculpas!).

sábado, setembro 19, 2009

terça-feira, setembro 15, 2009

Duas Palavras Preferidas

Canvas*
Maintenantª







* Tela, em Inglês
ªAgora, em Francês
É meramente fonológico.

terça-feira, setembro 08, 2009

Querido Avô

O que hoje começa é por si - e, por isso, para si.
Descobri imensas coisas desde então que nem imaginei serem possíveis, acho que ia ficar orgulhoso. Quem mais sabe disse: Você vai ser quem mais sabe sobre esse assunto. E quem mais sabe deu-me de presente o saber que não tenho de perder uma para evitar a outra. Não achava possível, mas é, imagine!
Vai estar comigo nestes tempos, mais ainda do que normalmente, vai ajudar-me a ver o lado mais Humano desta Ciência. Sim, acho que é isso.
É por si, Avô. Obrigada.
Vera