quinta-feira, maio 08, 2008

Insónia

Era uma vez uma miúda. Essa miúda vivia dos Sonhos. Acreditava no poder dos Sonhos. Mas não daqueles sonhos de quando se está a dormir. Nesses não acreditava, até porque não dormia muito bem. Acreditava que os Sonhos se tornavam realidade. Tinha uma imaginação fácil, esta miúda. Tinha ideias para ser feliz, todos os dias encontrava um novo caminho, mas não há caminhos sem pedras, e parecia que a miúda não sabia levantar os pés. E desanimava. Dava pontapés nas pedras e claro que elas não se mexiam. Só a magoavam. Esta miúda acreditava nas pessoas. Amava profundamente a raça humana e sentia-se no direito de ser amada. Havia dias em que olhava à volta e aquelas pessoas que tanto amava eram pedras distantes. Os Sonhos eram pedras. As pessoas eram pedras. Até que um dia esta miúda, que tanto sonhava, tanto acreditava, tanto amava, sentiu um CRACK lá dentro. Qualquer coisa se partia. Ou não. Qualquer coisa solidificava. Olhou para as mãos e elas ganhavam um peso e uma textura estranhos, ela não conseguia levantar os braços com o peso, qualquer coisa os puxava para baixo. Quis fugir. Levantou um pé para começar a correr. Não conseguiu. Sentiu uma onda de frio subir por si acima, um frio entre a pele e os ossos, e o som de qualquer coisa a estalar. Sentiu os músculos a endurecer, o cabelo a perder o movimento. Até que deixou de sentir. Era uma pedra-miúda, que um dia tinha sonhado e acreditado e amado. Era uma pedra.

1 comentário:

martuxa disse...

Querida Vera, a mil e quinhentos quilometros te digo: as pedras-miudas nao existem. Existem, sim, as fases mais duras, tao duras que parecem pedras. Mas as miudas fixes ultrapassam-nas, e tu és uma miuda fixe verinha. Nao te preocupes: como veio, ha de partir. Nim abrir e echar de olhos, mesmo que pareça uma eternidade. Como sempre, rezo por ti. Um beijo e um queijo, ca da francia, da tua martinha